A economia pode ser comparada muitas vezes a um organismo vivo e frágil, que requer atenção e cuidados a todo o momento. Deslizes nessa área podem ter graves consequências no futuro e levar a desperdícios enormes de oportunidades.
Neste ano eleitoral, a inflação voltou a rondar a economia brasileira, como uma febre conhecida.
Os preços estão subindo de forma consistente e ameaçando estourar a meta do Banco Central de manter a inflação anual em 2010 ao redor de 4,5%. Se o ano terminasse agora, a inflação acumulada já seria maior do que isso, de 5,2%.
Isso não ocorre apenas no Brasil, mas em várias economias emergentes, que se recuperam mais rápido da crise de 2008/2009 do que os países avançados.
O primeiro gráfico abaixo mostra como os preços vêm subindo nos emergentes, enquanto se mantêm sob controle nas economias avançadas. Elas ainda se recuperam lentamente, com vendas baixas e desemprego elevado (segundo e terceiro quadros).
Arte/Folha Online
No caso brasileiro, o mais grave é que a inflação sobe com força ao mesmo tempo em que o país registra cada vez mais importações. Em tese, o aumento das compras de bens e matérias primas no exterior deveria contribuir para a queda dos preços, já que há um aumento da oferta. Não é o que estamos vendo.
Em vários casos, as importações entre janeiro e fevereiro deste ano foram até 40% maiores do que em igual período de 2009. Mas os preços não deram trégua em um pais que está no caminho de crescer entre 5% e 6% neste ano.
A volta da ameaça inflacionária coloca mais uma vez o Brasil em uma encruzilhada. Vai ficando provado na prática que o pais simplesmente não consegue crescer acima de 5% ou 6% ao ano sem ter problemas reais pelo caminho.
A solução para isso? Um forte aumento dos investimentos produtivos e em infraestrutura, que desentupiriam os gargalos que temos visto repetidamente em momentos de crescimento do PIB.
Mais dinheiro e fábricas somente, porém, não resolvem. Já há falta de mão de obra até mesmo em um setor pouco qualificado como o da construção civil.
Para os dois candidatos mais competitivos no cenário eleitoral, José Serra e Dilma Rousseff, o grande desafio do próximo governo é justamente esse: criar um clima para que não apenas os investimentos privados aumentem sem parar, mas que haja espaço no Orçamento para investimentos públicos, hoje pífios diante das despesas com a máquina estatal. E para que existam programas sérios de aperfeiçoamento de mão de obra.
Em retrospectiva, os ciclos eleitorais mais recentes trouxeram Fernando Henrique Cardoso e Lula. O primeiro assentou as bases para um Brasil de moeda estável e minimamente mais moderno. O segundo soube aproveitar essa plataforma e, de forma muito hábil, transferir recursos do Estado aos mais pobres (via Bolsa Família e INSS, com aumentos reais para o salário mínimo).
Deu-se com isso uma espécie de estopim para o aumento da atividade e para o consumo voltados à baixa renda. Esse dinamismo traduziu-se em mais empregos formais, que consolidaram o Brasil em um novo patamar. São 12,1 milhões de novas vagas com carteira assinada no governo Lula.
Serra diz que "o Brasil pode mais", mas soa recalcado ao dizer que o PT e Lula querem "dividir o nosso Brasil". O fato é que Lula integrou economicamente (que é, afinal, o que importa) milhões de brasileiros que antes viviam à margem do crescimento.
Mas isso tudo é passado.
Agora é hora de tanto Serra quanto Dilma apresentarem de forma honesta como permitir ao Brasil crescer mais de 5% ou 6% ao ano sem cair de cama por conta da recorrente febre inflacionária.
Fernando Canzian, 42 anos, é repórter especial da Folha. Foi secretário de Redação, editor de Brasil e do Painel e correspondente em Washington e Nova York. Ganhou um Prêmio Esso em 2006 e é autor do livro "Desastre Global - Um ano na pior crise desde 1929". Escreve às segundas-feiras na Folha Online.
Fonte: http://www1.folha.uol.com.br/folha/pensata/fernandocanzian/ult1470u719282.shtml
segunda-feira, 12 de abril de 2010
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