Escolhido como pré-candidato ao Senado pelo PT de Pernambuco, em um processo considerado ainda polêmico, Humberto Costa nega temer possíveis ataques de adversários por ter sido citado no escândalo da Máfia dos Vampiros, em 2006. O ex-ministro da Saúde , que foi inocentado das acusações este ano, atribuiu sua saída da pasta a uma bem sucedida estratégia para criar uma base de sustentação ao governo Lula e evitar assim um possível impeachment do presidente.
Humberto Costa defende a escolha de seu nome para a disputa ao Senado após críticas sobre a decisão. Ele diz que o ex-prefeito do Recife João Paulo, que também disputava a indicação do partido, abriu mão da candidatura porque não quis disputar a prévia.
Humberto Costa afirma ainda que Dilma Rousseff não foi a única opção de Lula e que a inexperiência eleitoral da ex-ministra da Casa Civil é compensada pela experiência administrativa. "Ao longo da disputa ela vai adquirindo o traquejo", afirmou. Confira abaixo a entrevista do ex-ministro da Saúde:
Terra - Como o senhor avalia sua escolha pelo PT para disputar uma vaga ao Senado por Pernambuco?
Humberto Costa - Foi a conclusão de um processo. A construção da minha candidatura vem naturalmente desde 2006. Desde o momento em que nós não conseguimos chegar ao segundo turno, mas de imediato manifestamos apoio a Eduardo (Campos), depois quando entrei no governo, o trabalho que fiz via Secretaria de Cidades. A relação política que consegui construir com prefeitos, deputados estaduais e federais, lideranças dos partidos da Frente Popular. Nossa vitória do PED (Processo de Eleição Direta). Entendo ser o resultado de um conjunto de acertos estratégicos que consegui realizar. E eventuais contingências da política, que são coisas imprevisíveis. Tudo isso se somou e chegou a esse resultado.
Terra - Em 2006, enquanto candidato ao Governo do Estado o senhor sofreu duros ataques por conta das acusações de envolvimento com a Máfia dos Vampiros. Apesar de ter sido inocentado, o senhor teme que isso venha à tona mais uma vez nesta eleição?
Humberto Campos - De forma alguma. A decisão que foi tomada pela Justiça foi uma decisão cristalina. O prórpi Ministério Público, a quem cabe o poder de fazer e manter a acusação se pronunciou pela minha absolvição afirmando categoricamente que não há provas e que a denuncia era inconsistente. Isso foi reforçado pelo voto do relator e relatório aprovado. As provas que teriam sido apresentadas na denuncia inicial não tinham consistência. Tanto que na votação levada ao Tribunal Regional Federal (TRF) o resultado foi 14 a 0. Não receio de nenhuma forma que alguém queira utilizar isso, que reafirmei ser primeiro a pedir o processo de investigação.
Terra - Durante a passagem pelo Ministério da Saúde, foram feitas críticas à sua administração e culminou na saída do senhor para ceder espaço para um partido aliado do governo Lula. Como o senhor encarou a saída naquele momento e as críticas que foram feitas?
Humberto Costa - Aquele momento foi um momento onde todo o Governo vivia uma crise séria. Havia um risco concreto de o presidente Lula sofrer um processo de Impeachment por conta das dificuldades que nós estávamos tendo dentro do Congresso Nacional, principalmente na Câmara de Deputados. O fato é que o governo para ampliar essa base de sustentação, esse terremoto que estava acontecendo, precisou ampliar a composição do governo. Não fui apenas eu que sai naquele momento. Foi aberto espaço para o PP no Ministério das Cidades, quando sai a vaga foi para o PMDB, a Dilma que estava na pasta de Minas e Energia foi para a Casa Civil e abriu a vaga para o PMDB. A pasta da Comunicação foi para o PMDB, a do Trabalho para o PDT, a da Previdência para o PMDB. Foi uma tentativa, bem sucedida, de criar uma base de sustentação para superar aquela crise. Sai com a maior tranquilidade. Sai sabendo que era para o governo resolver um problema grave. Minha gestão hoje é reconhecida como positiva. Iniciamos programas importantes, quando Lula teve aqui disse que o SAMU era um dos melhores programas de governo, fizemos o Brasil Sorridente, trouxemos para cá (Pernambuco) a Hemobrás, implantamos modelos de gestão mediante contratos com universidades. Fizemos muitas coisas que, durante a campanha, nós vamos trabalhar.
Terra - Dilma Rousseff é apontada como inexperiente por nunca ter concorrido a uma eleição. O nome da ex-ministra foi a única opção de Lula?
Humberto Costa - Não. A escolha recaiu sobre o nome de Dilma, pelo fato de que ela é de fato e sem dúvida, dentro do governo e do nosso partido uma pessoa que teve uma participação definitiva para o próprio sucesso do nosso governo. Alguém que conhece o governo de ponta a ponta. Sabe quais as principais ações que foram desenvolvidas e o que há pra ser feito neste projeto que não se esgota em oito anos. Então foi essa característica, a preocupação de que nome iríamos apresentar para dar continuidade a esse projeto que foi feito até agora que permeou essa escolha de Dilma, além da história política dela. Não é uma candidata por exclusão, de forma nenhuma. Ela é uma candidata pelos méritos que ela tem. Tínhamos nomes de peso que não sofreram nenhum desgaste, como o de Jaques Wagner (governador da Bahia), o nome de Marcelo Deda (governador de Sergipe), a própria Marta Suplicy (ex-ministra do Turismo). Ela (Dilma Rousseff) é quem melhor encarna o que é o governo Lula hoje.
Terra - Mas ao escolher uma candidata sem experiência em disputas eleitorais, o presidente Lula não demonstraria um excesso de confiança de que é capaz transferir os votos?
Humberto Costa - Isso não quer dizer nada. Sempre existe uma primeira vez pra quem está entrando na política.
Terra - Mas de cara uma candidatura à Presidência da República?
Humberto Costa - Se fosse uma pessoa que nunca tivesse disputado uma eleição e não tivesse experiência política. Mas Dilma tem uma larga experiência política, dentro do movimento social, com a militância, experiência administrativa no governo federal e no governo do Rio Grande do Sul. Uma militância partidária que passou pelo PDT e depois veio para o PT. Apoiou e coordenou o programa de governo nas áreas de Ciências e de Minas e Energia, ou seja, não é uma pessoa inexperiente para fazer parte de uma disputa eleitoral. O fato de não ter disputado uma eleição, ao longo da disputa ela vai adquirindo o traquejo. É uma coisa natural.
Terra - O presidente Lula disse, em recente entrevista, que se surpreendeu com a escolha do senhor como pré-candidato do PT ao Senado, em vez do também ex-prefeito do Recife, João Paulo, e sobre um eventual acordo do partido sobre o assunto. Como o senhor avalia as declarações do presidente?
Humberto Costa - Muita gente também se surpreendeu com esse resultado. Primeiro porque havia uma expectativa de que essa solução fosse encontrada por meio de uma prévia. Apenas em 1996, o PT (pernambucano) decidiu por meio de uma prévia, que eu disputei, para a Prefeitura do Recife e ganhei. Terminei não sendo candidato. Em 1998, não houve prévia. Em 2000, a eleição de João Paulo foi resolvida consensualmente, em 2002, 2004 e também em 2006. Em 2008, que aparentemente seria um momento de muito enfrentamento, resolvemos pelo consenso a candidatura de João da Costa. A surpresa é que muita gente não conhece essa história e pensava que iria se resolver pela prévia. Segundo: havia também uma expectativa de que o nome fosse o de João Paulo, pois as pessoas não tinham acompanhado a repercussão do processo de absolvição que tive do Tribunal Regional Federal (TRF), o parecer do Ministério Público e também a construção que a gente fez aqui, que não é uma coisa caída de paraquedas. Assim vejo a surpresa dele.
Terra - Um dos fatores para a retirada do nome de João Paulo da disputa foi uma pesquisa encomendada pelo PT, onde o senhor teria dois pontos percentuais a mais. O resultado dessa pesquisa foi determinante?
Humberto Costa - Não. Inclusive afirmei em vários momentos que a pesquisa era um critério apenas. Não o único critério. Se a pesquisa fosse o único critério nós teríamos apoiado a candidatura de João da Costa, atual prefeito do Recife, em 2008? Não. Naquele momento, de todos os candidatos do PT era o que tinha a situação mais difícil. Mas ele reuniu as condições políticas pra ser o candidato e o apoio político transformou-se em apoio eleitoral. Eu inclusive disse que apesar do resultado da pesquisa eu acreditava ter legitimidade para ser o candidato. Como tal, nem a pesquisa ou opinião de A, B ou de C seria a única coisa que eu iria analisar. Eu iria apresentar minha candidatura à prévia, pois não achava que esse poderia ser o único critério. É importante dizer isso: a desistência foi de João Paulo, ele abriu mão da candidatura dele, não quis se inscrever para disputar prévia. Isso não se deu apenas por conta da pesquisa. Se deu por uma série de fatores, do que representaria a disputa internamente do PT, pelo que ele sabe das relações da Frente Popular comigo, ou seja, um conjunto de coisas. Embora a pesquisa possa ter uma relevância, pois mostra um quadro que se alterou, não é o fator determinante para a decisão tomada.
Terra - Por que o PT preferiu omitir os dados desta pesquisa?
Humberto Costa - Porque não estavam registrados. Mas a informações que eu tenho é que a pesquisa está sendo registrada pra ser dada a todo mundo. Não tenho nenhuma preocupação de esconder a pesquisa. O levantamento abrange todos os candidatos. Do ponto de vista do PT há um equilíbrio entre João Paulo e eu com uma leve vantagem, mais de dois pontos, para mim. Mas não justifica que a pesquisa seja um fator de decisão. Nem pra um lado, nem pra outro. Se fosse uma pesquisa onde um tem 40% e o outro tem 10%, essa pesquisa tem peso. Outra coisa é uma pesquisa que apresenta um com 48% e outro com 42%. Ainda assim, outro com 48% e outro 30%, ainda seria uma pesquisa que mostra competitividade.
Terra - Em algum momento algumas das partes tentou submeter essa decisão ao presidente Lula ou Dilma Rousseff?
Humberto Costa - Nós dissemos o tempo todo que queríamos escutar o presidente Lula e a candidata Dilma. Tentamos várias vezes fazer esta conversa, mas não foi possível. Obviamente que eles sendo ouvidos seriam mais algumas opiniões a serem levadas em consideração. Mas a palavra sobre o processo teria que ser dada pelo partido aqui no Estado. Tentaram dizer que: "isso já veio imposto da nacional e tal...". Não. De jeito nenhum. Nem do presidente nem de Dilma, e nem da direção nacional. A decisão em última instância é do PT daqui, tanto que se aventou fazer uma prévia.
Terra - Cria-se algum tipo de animosidade contra João Paulo por ele ter um bom peso eleitoral?
Humberto Costa - Não sei a quem seria uma ameaça. Porque ao PT, quanto mais nomes eleitoralmente fortes a gente tiver para encabeçar nossos projetos, melhor para o partido. Temos que valorizar João Paulo pelo patrimônio que é no PT. Ele nunca deixou de receber o apoio incondicional do PT. Apoiamos em 2000, quando foi candidato. Nos dois mandatos de João Paulo, nunca, jamais e nenhuma circunstância os vereadores do partido causaram embaraço ou constrangimento do governo de João Paulo. Pelo contrário, se for analisar o presidente Lula teve muito mais dificuldade com o PT no Congresso Nacional do que João Paulo aqui. Ele apresentou o candidato que ele entendia que era o melhor em 2008. Então, como dizer que uma pessoa como essa sofre qualquer tipo de pressão, constrangimento ou tentativa de tolher o seu crescimento como liderança política. O problema é que a cada momento existe uma coisa que é melhor para o partido. Não é possível também que todos os espaços do partido sejam ocupados apenas com uma determinada pessoa ou determinado seguimento.
Terra - O senhor acredita na reeleição de Eduardo Campos? Por quê?
Humberto Costa - Eduardo tem promovido uma verdadeira revolução em Pernambuco. O comparativo de oito anos do governo anterior - de Jarbas Vasconcelos (PMDB) - nós é favorável. Ele soube agregar politicamente. Em nenhum momento dirigiu o governo com qualquer tipo de visão revanchista, superou a cultura política de sempre estar se fazendo disputa e briga. Tem credibilidade e um governo do ponto de vista ético sem reparo.
Terra - Qual a avaliação que o senhor faz das atuações dos senadores Marco Maciel (DEM), Sérgio Guerra (PSDB) e Jarbas Vasconcelos (PMDB) no Senado?
Humberto Costa - É uma atuação sofrível. O senador Jarbas Vasconcelos transformou o mandato dele em um mandato de oposição ao presidente Lula. Toda a energia dele é usada no sentido de atacar o governo e fazer denúncias. É contra o que a própria população avalia sobre o governo. Temos o debate da reforma tributária, da regulação do pré-sal a viabilização das obras do PAC. Nenhum dos três teve esse papel, que o próprio governador teria como expectativa.
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