Para tentar evitar o desempenho modesto de eleições passadas no Rio Grande do Sul, o Partido Progressista (PP) decidiu apostar todas as suas fichas na disputa por uma vaga no Senado. De olho na influência do partido, que, no Estado, tem 200 filiados e detém 149 prefeituras, a candidatura da jornalista Ana Amélia Lemos foi anunciada como "a grande novidade" na campanha eleitoral. A opção de focar o Senado não só deu destaque para o seu nome como transformou o partido em uma espécie de aliado cobiçado. A preferência por uma coligação foi dada ao PSDB do governo de Yeda Crusius, porém, PSB, PTB e PMDB também buscam a aliança.
Ana Amélia não terá vida fácil durante a campanha no Estado. Figuras políticas de peso como o senador Paulo Paim (PT), que mira a reeleição, e o ex-governador Germano Rigotto (PMDB), aparecem entre os concorrentes. Com 33 anos de carreira no jornalismo, 31 deles em Brasília, ela deixou suas funções no Grupo RBS para estrear na política. A apresentação da pré-candidatura será o destaque da pré-convenção do PP, neste sábado, em Porto Alegre. Os progressistas, que não elegem um representante no Senado desde 1982, prometem realizar a festa nos moldes das pré-convenções norte-americanas. Confira abaixo a entrevista que a jornalista concedeu ao Terra.
Terra - O PP apresenta sua candidatura como a novidade da eleição. Como a senhora pretende se diferenciar?
Ana Amélia - Eu pretendo apenas continuar fazendo na política o que fiz no jornalismo. O Rio Grande do Sul tem uma economia forte, mas apresenta uma situação de fragilidade em relação à dependência da União. Essa situação impede iniciativas não só do estado, mas dos municípios. Você poderá me dizer: isso é reforma tributária. É, também. Não é possível uma federação em que a União seja a concentradora da maior parte da receita. São distorções. O caso do pré-sal é um exemplo. Governadores e prefeitos vão a Brasília mendigar.
Terra - Por que a senhora decidiu deixar para trás uma carreira consolidada e ingressar na política partidária?
Ana Amélia - Dos 33 anos em que trabalhei, 31 foram em Brasília. Chega um determinado momento de aceitar provocações e desafios. Muitas vezes antes recusei. Mas agora achei que meu ciclo havia se encerrado. Não foi apenas o PP que me convidou. Mas tenho relação com uma série de seus líderes. Quem abonou minha ficha de filiação ao partido foi o ex-ministro Francisco Turra. Uma coisa é você criticar, outra é ser protagonista.
Terra - E ser protagonista é bem mais difícil?
Ana Amélia - Com certeza. Eu já estou percebendo agora, em relação à questão das alianças partidárias, o grau de dificuldade de estabelecer consensos.
Terra - A senhora se refere às dificuldades da manutenção da aliança entre PSDB e PP no Rio Grande do Sul?
Ana Amélia - Nem sempre a lógica se impõe nas questões políticas. Estou de longe acompanhando as tratativas. Nos contatos com o partido, disse que, como "cristã nova", não tenho o grau de entendimento que possuem, por exemplo, a bancada estadual, os prefeitos. Eles, devido ao relacionamento que mantêm, têm muito mais autoridade para fazer indicações ao partido. E a decisão passa necessariamente pelo comando partidário.
Terra - O PP vai funcionar nestas eleições como o fiel da balança na corrida estadual?
Ana Amélia - Sim. Se não fosse sua importância, não estaria sendo disputado por tantos partidos. O PSDB busca a aliança porque sabe que isso poderá dar garantia de viabilidade para a reeleição da governadora Yeda Crusius. Em todos os cenários o PP é o fiel da balança. O partido hoje tem uma estrutura muito afinada, são 490 diretórios e quase 150 prefeitos. Tem uma dinâmica de política partidária que interessa a todos os partidos. Mas em todas as propostas sempre há um senão. E todas essas nuances precisam ser analisadas por quem protagoniza a relação.
Terra - Enquanto que uma aliança com PSDB garante um palanque melhor estruturado para o candidato José Serra, uma união com o PSB ou com o PMDB não seria um complicador para o PP gaúcho, em função da necessidade de apoio a Dilma Rousseff?
Ana Amélia - Não há oficialização no PP ainda. O PP tem uma perna na Dilma e outra no Serra. Da mesma forma o PMDB. No PMDB, Padilha e Quércia estão com Serra. E Temer com Dilma.
Terra - A senhora vota em Dilma ou em Serra?
Ana Amélia - Eu até agora tenho visto um pouco de bate-boca entre os dois candidatos. Quero primeiro é ver as propostas que eles vão apresentar.
Terra - E no seu caso, qual dos dois adversários é mais difícil de vencer?
Ana Amélia - Não tenho adversários. Vamos disputar em uma eleição a preferência do eleitor. Adversário parece que você está num embate. Sou amiga e respeito os dois.
Terra - O senador Paulo Paim diz que vai buscar o segundo voto em todos os partidos. A senhora pretende adotar a mesma estratégia?
Ana Amélia - É uma estratégia inteligente. Pelas manifestações que tenho recebido, terei uma significativa parcela de apoio dos dois lados. Eu vou também ter o voto de gênero. A pesquisa mostrou que o percentual de voto feminino me beneficia bastante. E como o número de mulheres é superior ao de homens também terei votos entre os jovens de 24 a 35 anos. Isso é muito positivo.
Terra - A senhora prefere trocar votos com Paim ou com Rigotto?
Ana Amélia - Isso dependerá da aliança que o partido fizer. Hoje não dá para dizer.
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