quinta-feira, 22 de abril de 2010

RS: Simon defenderá "até o fim" candidatura própria do PMDB

FLAVIA BEMFICA
Direto de Porto Alegre

Os peemedebistas do Rio Grande do Sul negam-se a acreditar que o Estado tenha entrado no cálculo do prazo de 15 de maio, estabelecido pela direção nacional do PMDB para zerar as pendências com o PT nos estados e, se tiver sucesso, organizar um encontro do partido para indicar seu presidente, o deputado federal Michel Temer, como candidato a vice de Dilma Rousseff (PT).

Apesar de não figurar entre os estados avaliados como em situação preocupante pelo PMDB nacional, o RS não deve decidir sua condição frente à eleição presidencial em um tempo tão curto. Mesmo sabendo que a causa está perdida, o PMDB do RS insistirá na defesa da candidatura própria do partido (a do ex-governador do Paraná, Roberto Requião) à presidência da República.

O discurso da candidatura própria tem auxiliado os peemedebistas gaúchos a não definirem qual será sua posição na corrida eleitoral, já que a sigla no Estado segue dividida. A maior parte das lideranças assegura que, sem candidato, o PMDB do RS não dará palanque a Dilma, independente de seu vice ser Temer.

O coordenador da campanha do candidato do PMDB ao governo, José Fogaça, é o deputado federal Mendes Ribeiro Filho, que abriu voto para a ex-ministra. Os colegas de bancada garantem que ele é minoria. O principal adversário de Fogaça na eleição estadual é o petista Tarso Genro. E, em sua visita recente ao Estado, Dilma qualificou Fogaça como "aliado estratégico", dizendo que apoio e palanque não se recusam.

Nos bastidores, há peemedebistas que admitem que, no final, Fogaça pode dividir palanque com Dilma, apesar das resistências existentes por todo o Estado. Mas, antes, o PMDB gaúcho defenderá a candidatura própria até o fim. Não só porque o partido está rachado, mas porque ela representa mais um round no embate "diplomático" que a legenda no RS trava há anos com a direção nacional. À frente do embate está o hoje presidente estadual, senador Pedro Simon.

Simon, 80 anos completados em janeiro, 50 deles de vida pública, no quarto mandato no Senado é, ao mesmo tempo, uma liderança e uma voz dissonante dentro de seu partido (que ainda chama de MDB), o com maior representação em cargos eletivos do país. A interlocutores próximos, o senador admite sua simpatia por Dilma. Mas, de público, nega-se a fazer projeções sobre um cenário sem candidatura própria.

As críticas de Simon ao presidente Lula são conhecidas e aquelas destinadas a Fernando Henrique Cardoso quando este era presidente renderam-lhe a perda (para Rita Camata) da indicação a vice de José Serra em 2002. Serra levou o apoio de apenas uma parte do PMDB. E perdeu a eleição presidencial. O PMDB então, que por oito anos havia acompanhado FHC, encaminhou negociações com o vencedor da eleição, o PT, passou a ocupar espaço no Executivo e a dar sustentação ao governo no Congresso. "Se ganhássemos o governo com o Requião, essa gente toda seria arquivada", diz Simon sobre a cúpula nacional.

Confira os principais trechos da entrevista que ele concedeu ao Terra sobre a situação do PMDB frente às eleições de outubro:

Por que o senhor e o PMDB do Rio Grande do Sul defendem a tese da candidatura própria do PMDB à presidência da República?
Porque sendo o MDB o maior partido do país, com o maior número de governadores, de senadores, de deputados federais, de deputados estaduais, de prefeitos e de vereadores, não tem motivo para não lançar seu candidato.

Mas a direção nacional do partido está bem mais inclinada a apoiar a candidatura de Dilma Rousseff (PT), indicando o deputado Michel Temer como vice.
O comando do MDB infelizmente é composto por um grupo de pessoas que pensam nos cargos e não no partido e nem no Brasil. As mesmas pessoas fecharam com o Fernando Henrique Cardoso e governaram com ele durante oito anos. Depois fecharam com o Lula e governam com ele. Se ganhar o PSDB eles vão governar com o Serra, e se ganhar o PT eles vão governar com a Dilma.

Na atual conjuntura, quais são as chances de a candidatura própria vingar?
As chances são muito pequenas. Há quatro anos a candidatura própria seria aprovada. Então, o comando simplesmente não fez convenção. Agora é mais ou menos a mesma coisa. Estão num esquema fechado para fazer uma aliança com o PT. Ainda há uma expectativa em relação à convenção, mas sabemos que será muito difícil.

Sendo assim, o que deve acontecer com o partido? Vai rachar entre a composição da aliança com o PT e os dissidentes, que apoiarão José Serra, como já anunciado em alguns estados?
Nós no Rio Grande do Sul preferimos não responder a esta pergunta, porque esvaziaríamos ainda mais a candidatura própria. Eu vou até o final defendendo a candidatura própria e acredito que o comando do partido vá deixar a definição só para a última data possível, lá em junho, que é para diminuir mesmo as nossas chances, porque todos os outros candidatos já estão na rua.

A cúpula do partido fala em zerar todas as pendências com o PT nos estados até 15 de maio e então realizar um grande ato para o lançamento do nome do deputado Michel Temer como vice de Dilma. Isso antecipa a definição...
Isso já é um golpe. Tem que ter uma convenção e nela serem apresentadas as duas posições para escolha: a da candidatura própria do Requião e a da indicação do Temer como vice de Dilma. O que querem fazer grosseiramente é, antes da convenção, já decidir a aliança com o PT. Esse grupo tem ministérios, a Petrobras, a Eletrobras e mais as emendas que o governo aceita. Uma emenda que o governo aceita já garante a eleição de um deputado federal.

O senhor faz muitas críticas à direção nacional do partido. Não há como os descontentes mudarem essa configuração dentro do comando nacional?
Eu durante muito tempo fui vice-presidente, secretário-geral, o doutor Ulysses era presidente. Mas, depois, esse pessoal tomou conta. Começou com o Fernando Henrique, que não gostava muito do MDB, mas precisava de uma aliança. Fechou aliança com essa gente: Sarney, Renan, Jader, Geddel. Eles dominam pelo poder. Como eu falei, ministérios, diretorias de estatais, emendas. É um domínio e uma humilhação total da bancada. Essa gente é como uma legião estrangeira, mas eles têm toda a máquina. A maioria sendo processada no Supremo Tribunal. Se nós ganhássemos o governo com o Requião essa gente toda seria arquivada, ficaria à margem. Mas do jeito que está, é como eu falei, Fernando Henrique ontem, Lula hoje e, quem ganhar, amanhã.

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